O mês de novembro é festivo para a Umbanda, em especial o dia 15. Foi neste dia, há 105 anos, que o Caboclo das Sete Encruzilhadas, primeiro Guia de Umbanda se manifestou através de seu fundador, Zélio Fernandino de Moraes. Abaixo, publicamos uma série histórica que trata deste momento e seus desdobramentos.
(Na foto, Zélio de Moraes ao centro da mesa, em meados do século passado)
Zélio Fernandino de Moraes: fundador e mestre
Em novembro de 1908, uma família tradicional de Neves, Niterói (RJ) foi surpreendida por uma ocorrência que tomou aspectos sobrenaturais: o jovem Zélio Fernandino de Moraes, com uma estranha paralisia que os médicos não conseguiam curar, certo dia ergueu-se do leito e declarou: “Amanhã estarei curado!”. No dia seguinte, levantou-se normalmente e começou a andar como se nada tivesse acontecido. Tinha então 17 anos de idade e preparava-se para ingressar na carreira militar na Marinha. A medicina tradicional não soube explicar o que acontecera. Intrigado, um amigo da família sugeriu uma visita à Federação Espírita de Niterói.
No dia 15 de novembro, o jovem Zélio foi convidado a participar da sessão, tomando um lugar à mesa. Tomado por uma força estranha e superior à sua vontade, o jovem levantou-se, dizendo: “Aqui está faltando uma flor!”. Em seguida, saiu da sala indo ao jardim, voltando logo após com uma flor, que depositou no centro da mesa.
Restabelecidos os trabalhos, manifestaram-se nos médiuns kardecistas espíritos que se diziam pretos, escravos e índios. Foram convidados a se retirarem, advertidos de seu “estado de atraso espiritual”. Novamente uma força estranha dominou o jovem Zélio e ele falou, sem saber o que dizia. Ouvia apenas a sua própria voz perguntar o motivo que levava os dirigentes dos trabalhos a não aceitarem a comunicação daqueles espíritos e do por quê em serem considerados atrasados apenas por encarnações passadas que revelavam.
Seguiu-se um diálogo acalorado e os responsáveis pela sessão procuravam doutrinar e afastar o espírito desconhecido, que desenvolvia uma argumentação segura. Um médium vidente perguntou: “Por que o irmão fala nestes termos, pretendendo que a direção aceite a manifestação de espíritos que, pelo grau de cultura que tiveram, quando encarnados, são claramente atrasados? Por que fala deste modo, se estou vendo que me dirijo neste momento a um jesuíta e a sua veste branca reflete uma aura de luz? E qual o seu nome irmão?
E o espírito desconhecido falou: “Se julgam atrasados os espíritos de pretos e índios, devo dizer que amanhã (16 de novembro) estarei na casa de meu aparelho [de Zélio, o médium], para dar início a um culto em que estes irmãos poderão dar suas mensagens e, assim, cumprir missão que o Plano Espiritual lhes confiou. Será uma religião que falará aos humildes, simbolizando a igualdade que deve existir entre todos os irmãos, encarnados e desencarnados. E se querem saber meu nome, que seja este: Caboclo das Sete Encruzilhadas, porque para mim não haverá caminhos fechados.
O vidente retrucou: “Julga o irmão que alguém irá assistir a seu culto?”, perguntou com ironia. E o espírito já identificado disse: “Cada colina de Niterói atuará como porta-voz, anunciando o culto que amanhã iniciarei”.
No dia seguinte, na casa da família Moraes, na Rua Floriano Peixoto, número 30, ao se aproximar à hora marcada, 20h, lá já estavam reunidos os membros da Federação Espírita para comprovarem a veracidade do que fora declarado na véspera; estavam os parentes mais próximos, amigos, vizinhos e, do lado de fora, uma multidão de desconhecidos. Às 20h, manifestou-se o Caboclo das Sete Encruzilhadas. Declarou que naquele momento se iniciava um novo culto, em que os espíritos de velhos africanos que haviam servido como escravos e que, desencarnados, assim como os índios nativos de nossa terra, poderiam trabalhar em benefício de seus irmãos encarnados, qualquer que fosse a cor, a raça, o credo e a condição social. A prática da caridade, no sentido do amor fraterno, seria a característica principal deste culto, que teria por base o Evangelho de Jesus.

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